Pessoa com deficiência ganha R$ 2.053 e só 3 em cada 10 têm trabalho, mostra o Censo

O Censo 2022 do IBGE, divulgado nesta sexta-feira (18), colocou número em uma desigualdade que muita família já vive na prática: quem tem deficiência ganha, em média, R$ 2.053 por mês, enquanto quem não tem deficiência recebe R$ 2.890. É 70% do rendimento — quase um terço a menos pelo mesmo mês de trabalho.
A diferença começa antes do salário, na porta de entrada do emprego. Das 13,71 milhões de pessoas com deficiência em idade de trabalhar no país, apenas 3,97 milhões estavam ocupadas. Isso dá 29%, ou pouco menos de 3 em cada 10. Entre as pessoas sem deficiência, a taxa é 55,8% — praticamente o dobro.
Onde o buraco é mais fundo
A pesquisa mostra que o tipo de deficiência muda muito o acesso ao trabalho. A ocupação varia de 12,9% entre pessoas com limitações mentais a 35,9% entre pessoas com dificuldade de enxergar. No meio do caminho aparecem quem tem dificuldade de caminhar ou subir degraus (17,2%), de pegar objetos pequenos (17,7%), deficiências múltiplas (15,6%) e dificuldade de ouvir (27,5%).
Somando deficiência, cor e sexo, a distância aumenta. Entre os homens pretos e pardos com deficiência, 36% estavam ocupados; entre os homens brancos, 34,6%. Já entre as mulheres pretas e pardas com deficiência a ocupação cai para 25,6%, e entre as mulheres brancas, para 22,7%. Ou seja: ser mulher com deficiência pesa mais na conta do que qualquer outro recorte medido.
Mesmo nos setores que pagam melhor a diferença não some. Na administração pública, educação, saúde e serviços sociais — onde estão boa parte das vagas com carteira assinada e das cotas — o rendimento médio de quem tem deficiência foi de R$ 3.223, contra R$ 4.146 de quem não tem.
A casa se sustenta de outro jeito
Esse é o dado que mais explica a rotina dessas famílias. Nos domicílios em que mora alguém com deficiência, o trabalho responde por 55,7% da renda; o resto, 44,3%, vem de outras fontes, como aposentadoria, pensão e benefícios assistenciais. Nas casas sem pessoa com deficiência a proporção é quase invertida: 78,4% vêm do trabalho e apenas 21,6% de outras fontes.
Na prática, quase metade do dinheiro que entra nessas casas depende de um benefício que precisa ser requerido, mantido e, às vezes, defendido em uma revisão. É por isso que uma perícia remarcada ou uma suspensão inesperada derruba o orçamento inteiro de um mês. O portal já explicou por que a aposentadoria da pessoa com deficiência não é a mesma coisa que o BPC e como funciona o auxílio-inclusão para quem recebia BPC e começou a trabalhar.
Cuidado com golpe
Todo levantamento grande sobre deficiência vira isca em seguida. Nos próximos dias devem circular mensagens dizendo que "o governo liberou um novo valor para pessoa com deficiência por causa do Censo", com link para cadastro e cobrança de uma taxa de análise, de urgência ou de "reserva de vaga". Também aparecem perfis oferecendo ganho de causa sem antes olhar um único documento do seu caso. O Censo é uma pesquisa estatística: ele mede a realidade, não cria benefício nem abre inscrição.
Nenhum órgão público cobra taxa nem pede Pix, senha do banco ou foto de documento para liberar benefício. Se você recebeu uma abordagem assim, ou se o seu pedido foi negado e você não entendeu o motivo, o caminho seguro é procurar um profissional de sua confiança para olhar a documentação e o histórico antes de qualquer pagamento.
Conteúdo informativo — não substitui orientação individualizada sobre o seu caso.
Júnior Arrais · Editor do Portal Júnior Arrais
Comunicador de Ubá (MG). Escreve todos os dias sobre benefícios sociais, INSS, trabalho e economia do dia a dia, a partir do Diário Oficial, de portarias e de fontes oficiais, em linguagem simples. Conheça a linha editorial e a política de correções do portal.