Fila da perícia do INSS cai ao menor nível em quase 3 anos; a promessa de outubro é para outra fila

Quem já dependeu de uma perícia médica do INSS para receber auxílio por incapacidade sabe o peso de esperar meses sem salário e sem benefício. Os números mais recentes mostram que essa espera encolheu bastante — e o governo agora fala em prazo para acabar com o atraso.
Os números
A fila de perícia médica fechou junho de 2026 com cerca de 391,4 mil agendamentos, o menor patamar em aproximadamente três anos. Para efeito de comparação, em agosto de 2023 eram 949,3 mil, e no pico, em novembro de 2025, o número passou de 1,2 milhão.
A espera média entre marcar e realizar a perícia também caiu: está em torno de 30 dias no país, segundo o Ministério da Previdência Social. Em agosto de 2023, essa média era de 71 dias.
A distribuição, porém, é desigual. O Ceará concentra a maior fila, com cerca de 56 mil agendamentos, seguido por São Paulo e Bahia, com aproximadamente 44 mil cada. Estados como Roraima, Acre e Mato Grosso do Sul têm cerca de mil agendamentos cada.
A promessa de outubro é sobre outra fila
Aqui é preciso separar duas coisas que a imprensa costuma misturar. O prazo anunciado pelo governo não é para a fila da perícia: é para a fila de requerimentos de benefício parados há mais de 45 dias, que é o prazo máximo fixado pelo Tribunal de Contas da União para o INSS analisar um pedido.
Esse estoque caiu de 1,882 milhão em janeiro de 2026 para cerca de 374 mil — uma queda de aproximadamente 80% no ano. O tempo médio de análise de um requerimento passou de 108 dias, em 2021, para 48 dias.
O ministro da Previdência Social, Wolney Queiroz, apresentou os dados na reunião do Conselho Nacional de Previdência Social de 4 de agosto de 2026 e projetou zerar esse atraso entre setembro e outubro, antes da meta original, que era o fim do ano.
Os mutirões de fim de semana
Parte da estratégia são os mutirões em fins de semana. Nos dias 1º e 2 de agosto, o INSS ofertou 12.586 vagas, sendo 8.467 de perícia médica em agências de 11 estados e 4.119 de avaliação social. Nos dias 8 e 9 de agosto, foram cerca de 5,8 mil vagas exclusivamente de avaliação social, voltadas ao BPC para pessoas com deficiência e idosos em situação de vulnerabilidade.
Um ponto prático que gera muita confusão: a forma de convocação muda conforme o mutirão. Em alguns, as vagas são preenchidas por quem já tinha perícia agendada com espera longa, e o segurado é chamado sem precisar fazer nada. Em outros, é preciso ter agendamento marcado pelos canais oficiais. Não existe, portanto, uma regra única — o aviso vem pelo canal oficial em que o pedido foi feito.
O que o governo diz estar fazendo
Entre as medidas citadas estão a contratação de 500 novos peritos médicos em 2025, a perícia conectada — em que o segurado vai à agência e o perito atende à distância — e a ampliação do Atestmed, a análise documental do atestado médico sem perícia presencial, cujo afastamento pode agora chegar a 90 dias.
Nem todo mundo aplaude. A Associação Nacional dos Médicos Peritos afirma que a análise apenas documental tem risco elevado de fraude, sobretudo em transtornos mentais, e sustenta que parte da redução da fila é artificial.
Fila menor não significa benefício garantido
Vale o alerta, porque a leitura otimista dos números engana. Perícia mais rápida quer dizer resposta mais rápida — que pode ser negativa. Nos dados do próprio ministério, a análise documental mantém entre 35% e 40% de indeferimentos, patamar semelhante ao da perícia presencial.
E, como sempre, a movimentação vem acompanhada de gente vendendo facilidade. Nenhum órgão do governo cobra taxa nem pede Pix para antecipar perícia, furar fila de mutirão ou "garantir" a concessão. Quem promete isso está vendendo o que não tem.
Se a perícia foi negada ou o laudo não refletiu o quadro real, o caminho é reunir a documentação médica completa e procurar um profissional de sua confiança para entender o motivo da negativa e o que ainda cabe fazer.
Conteúdo informativo — não substitui orientação individualizada sobre o seu caso.
Foto: Agência Brasil
Júnior Arrais · Editor do Portal Júnior Arrais
Comunicador de Ubá (MG). Escreve todos os dias sobre benefícios sociais, INSS, trabalho e economia do dia a dia, a partir do Diário Oficial, de portarias e de fontes oficiais, em linguagem simples. Conheça a linha editorial e a política de correções do portal.