Mais de 1 milhão bloquearam o próprio CPF nas bets; USP calcula o estrago na renda das famílias

Mais de 1 milhão de brasileiros já pediram para ser bloqueados em todas as casas de aposta autorizadas no país. O número da autoexclusão foi divulgado pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda nesta semana, com base no Sigap, o sistema que controla as plataformas licenciadas. Somando quem foi barrado por decisão do governo, como as pessoas que recebem Bolsa Família e BPC, são cerca de 5 milhões de CPFs fora das bets.
No mesmo dia, uma pesquisa da USP colocou um preço no fenômeno: as apostas teriam retirado entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica em 2025, o equivalente a algo entre 0,9% e 1,1% do PIB, e o peso maior caiu sobre as famílias de menor renda.
O que é a autoexclusão
É um cadastro em que a própria pessoa pede para ter o CPF barrado em todas as plataformas de aposta com licença no Brasil, por prazo determinado ou por tempo indefinido. Enquanto o bloqueio vale, a pessoa não consegue abrir conta, depositar nem receber publicidade dessas empresas. O pedido não tem custo e não é um cadastro de "devedor": é uma ferramenta de proteção, e a pessoa escolhe o prazo.
Ela se soma ao bloqueio automático que o portal já explicou: 3 milhões de pessoas do Bolsa Família e do BPC estão impedidas de apostar por decisão do Supremo, sem precisar pedir nada. Quem renegociou dívida pelo Desenrola também entrou na lista.
O tamanho do estrago, segundo a USP
O estudo é do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades, da Faculdade de Economia da USP. Os pontos principais:
- as famílias transferiram R$ 62,5 bilhões para as plataformas em 2025, dinheiro que deixou de virar comida, roupa e conta paga no comércio;
- a perda de atividade econômica, entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões, corresponde a 40% a 50% de todo o crescimento do país no ano;
- cerca de 14% do aumento do endividamento das famílias em 2025 pode estar ligado às apostas;
- o efeito líquido para as contas públicas é negativo em pelo menos R$ 22 bilhões, mesmo contando os impostos que as bets pagam.
Os pesquisadores destacam que a transferência de renda foi de baixo para cima: sai da família que aposta R$ 50 por semana e vai para empresas concentradas, o que aprofunda a desigualdade num país já muito desigual. O portal mostrou em agosto de onde vieram esses R$ 62 bilhões.
O lado da saúde
Os atendimentos no SUS por transtorno do jogo cresceram 104% entre 2018 e maio de 2025, chegando a 10,5 mil registros, com predomínio de pessoas entre 20 e 49 anos. O SUS mantém teleatendimento para quem perdeu o controle das apostas, e a autoexclusão funciona como o primeiro passo prático de quem quer parar.
Cuidado com golpe
O bloqueio vale só para as casas com licença. Os sites piratas continuam abertos e são justamente os que mais atraem quem foi barrado, com promessa de bônus, "liberação de CPF" e saque imediato. Também circulam mensagens cobrando taxa para "cancelar a autoexclusão" ou "recuperar dinheiro perdido em aposta". Nenhum órgão do governo cobra taxa nem pede Pix, senha ou foto de documento para bloquear ou desbloquear CPF.
Quem está endividado por causa de apostas, ou recebe cobranças de plataforma que não reconhece, deve procurar um profissional de sua confiança para organizar as dívidas e entender o que pode ser contestado.
Conteúdo informativo — não substitui orientação individualizada sobre o seu caso.
Júnior Arrais · Editor do Portal Júnior Arrais
Comunicador de Ubá (MG). Escreve todos os dias sobre benefícios sociais, INSS, trabalho e economia do dia a dia, a partir do Diário Oficial, de portarias e de fontes oficiais, em linguagem simples. Conheça a linha editorial e a política de correções do portal.