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Economia

Desenrola 3.0: governo vai comprar dívidas de até R$ 10 mil com desconto de 90%

Júnior Arrais Por Júnior Arrais · 26 de set. de 2026
Fachada de agência bancária com faixa 'Renegociação de dívidas' acima da porta; mulher de costas caminha para a entrada com uma pasta na mão

O governo federal criou a terceira fase do Desenrola, e o desenho é diferente de tudo o que o programa fez até aqui: em vez de o devedor procurar o banco, a União vai comprar as dívidas atrasadas, em leilão, com desconto mínimo de 90%, e repassar esse desconto a quem deve. A regra está na Medida Provisória nº 1.393, assinada pelo presidente Lula em São Paulo na sexta-feira, 25 de setembro, e vale até 30 de junho de 2028. O programa recebe o nome de Desenrola Brasil 3.0.

Quem pode ter a dívida comprada

A MP fixa três condições, que precisam ser cumpridas ao mesmo tempo:

  • ser dívida de pessoa física, em banco ou fora dele — cartão, crédito pessoal, mas também contas de água, luz, telefone e loja, que respondem por 55% do estoque de atrasos, segundo a Agência Brasil;
  • valor original abaixo de R$ 10 mil;
  • atraso entre 720 e 1.645 dias contados de 25 de setembro de 2026 — na prática, dívidas que venceram entre o fim de março de 2022 e o início de outubro de 2024.

Dívida mais nova ou mais antiga que isso fica de fora. Renda e outros requisitos ainda podem ser definidos por ato do Ministério da Fazenda. O governo estima que o programa alcance até 15 milhões de pessoas: o país tem 83,9 milhões de negativados, com quatro dívidas em média e valor médio de R$ 7 mil.

Como vai funcionar

A União abre um chamamento e os credores oferecem suas carteiras de dívidas vencidas. Vence quem der o maior desconto, nunca abaixo de 90%, e o credor que entrar tem de entregar todas as dívidas elegíveis de cada devedor — não pode escolher só uma parte. Comprada a carteira, o desconto é repassado integralmente: o devedor quita à vista com os 90% de abatimento ou parcela o saldo com juros, em condições que o Conselho Monetário Nacional ainda vai definir. A conta é do orçamento do Ministério da Fazenda, com teto de R$ 15 bilhões, suficiente para comprar até R$ 150 bilhões em dívidas.

O calendário: nada acontece agora

Este é o ponto que mais importa para quem está negativado. Segundo o cronograma divulgado pelo governo, o chamamento sai em novembro de 2026; os credores entregam as propostas em dezembro; a homologação fica para janeiro de 2027; e só em fevereiro de 2027 os contratos são assinados e o desconto começa a chegar ao devedor. Ou seja: hoje não existe adesão, cadastro, site ou fila do Desenrola 3.0. A MP também precisa passar pelo Congresso — ela vale por 60 dias, prorrogáveis por mais 60 — e foi anunciada a nove dias do primeiro turno, o que rendeu críticas da oposição: o senador Flávio Bolsonaro (PL) chamou o anúncio de "oportunista".

A mesma MP reabre por 120 dias o prazo de ofertas do Desenrola Adimplentes, a linha de crédito mais barato para quem está em dia. Já o Novo Desenrola, que renegociava direto no banco com desconto de até 90%, acabou em 31 de agosto; quem fechou acordo naquela fase mantém o contrato como está.

O que ainda não se sabe

A MP não diz como o devedor será avisado de que a dívida foi comprada, nem por qual canal vai negociar depois, nem o que acontece com a negativação enquanto o saldo não é pago. Esses detalhes devem vir em regulamento do Ministério da Fazenda e do CMN. Nas fases anteriores, o Desenrola 1 alcançou 15 milhões de pessoas e R$ 53 bilhões renegociados; o Desenrola 2, 10 milhões de pessoas e R$ 22 bilhões.

Cuidado com golpe

Todo lançamento do Desenrola vem acompanhado de uma onda de páginas e perfis que imitam o programa — o portal já contou os 544 anúncios falsos de renegociação retirados do ar em uma única ação. Como a fase 3 não tem nenhuma etapa aberta ao público antes de fevereiro de 2027, qualquer pessoa que ofereça hoje "adesão ao Desenrola 3.0", "reserva de vaga" ou "consulta da dívida comprada" mediante taxa, Pix, senha do banco ou foto de documento está aplicando golpe. Nenhum órgão do governo cobra para incluir alguém no programa.

Se a sua dívida se encaixa na faixa e você quer saber se compensa esperar o leilão ou negociar antes, procure um profissional de sua confiança para analisar as contas do seu caso — inclusive para checar se a cobrança que chega é mesmo do credor original.

Conteúdo informativo — não substitui orientação individualizada sobre o seu caso.

Júnior Arrais

Júnior Arrais · Editor do Portal Júnior Arrais

Comunicador de Ubá (MG). Escreve todos os dias sobre benefícios sociais, INSS, trabalho e economia do dia a dia, a partir do Diário Oficial, de portarias e de fontes oficiais, em linguagem simples. Conheça a linha editorial e a política de correções do portal.